PEÇA No.4
Sobre Peça no.4
"Peça no.4" é uma cena criada, originalmente, como um dueto para "Peças de Conversação" (filme - 2021, peça cênica - 2023), do Núcleo Cinematográfico de Dança (NCD).
"Peça no.4" é um exercício de diálogo, para conseguir mover junto. Sobre um pequeno banco, um dueto experimenta um diálogo com braços, mãos, cabeça e tronco, sustentando um tempo dilatado. No acolhimento de um colo as imagens que surgem escorregam das mãos e dos braços, desenhando tantas quantas forem as alegorias que podem reverberar no olhar de quem assiste: o corpo de duas pessoas, tracionando tensão e delicadeza, perpassando estados e imaginários diversos dessa relação em duo. A performance percorre a ambigüidade e a fluidez de sentidos da relação entre cada dueto e também a composição entre os duetos, mas sobretudo, fala do desejo da convivência.
Quão perto duas pessoas podem chegar e até que ponto elas devem permanecer sempre estranhas uma à outra? Citando Roland Barthes em "Como viver junto": "O que é desejado (na relação como viver junto) é uma distância que não quebre o afeto (...) uma distância penetrada, irrigada de ternura (...). Aqui alcançaríamos aquele valor que tento pouco a pouco definir sob o nome de delicadeza (palavra um tanto provocadora no mundo atual). Delicadeza seria: distância e cuidado, ausência de peso na relação, e, entretanto, calor intenso desta relação." É preciso existir uma ética da distância entre os indivíduos que convivem. O importante é manter o pathos de distância (pathos: afeto, do grego), ou seja, uma distância preenchida pela empatia. O estar-junto é a alteridade.
Como nós damos início a uma conversa com alguém? Para Maurice Blanchot, a definição de conversação poderia ser a seguinte: “quando duas pessoas falam juntas, elas não falam juntas, mas cada uma por sua vez: uma diz algo, depois pára, a outra, outra coisa (ou a mesma coisa), então pára. O discurso que elas realizam é composto de sequências que são interrompidas quando a conversa se move de parceiro para parceiro, mesmo que ajustes sejam feitos para que correspondam uns aos outros. O fato de que a fala precisa passar de um interlocutor para outro, a fim de ser confirmada, contradita ou desenvolvida, mostra a necessidade do intervalo. O poder de falar se interrompe, e esta interrupção desempenha um papel que parece ser menor - precisamente o papel de uma alteração subordinada. este papel, no entanto, é tão enigmático que pode ser interpretado como tendo o próprio enigma da linguagem: pausa entre frases, pausa de um interlocutor para outro e pausa para a atenção: a audição é o que dobra a força da locução.”
Mas para conversar com alguém diferente de mim preciso reconhecê-lo como sujeito e escutá-lo. Não estamos falando sobre consenso, mas um diálogo que sustente o conflito. Ao colocar em pauta as maneiras de ser, viver e ver do outro, podemos questionar as nossas relações do eu com o outro. A diferença deixa de estar do lado de fora, distante do próprio corpo, e passa a ser entendida como condição para a existência do próprio sujeito: ela estaria dentro, constituindo o corpo. Ao produzir as diferenças, nossa atenção se direciona para o jogo político aí implicado: no lugar de simplesmente observar uma sociedade plural é necessário perceber os conflitos e as negociações das posições que cada corpo ocupa.
Peça no.4 - [filme, 16 min., 2021]

Flyer divulgação da abertura de processo da residência realizada na FUNARTE - SP (2024), com doze artistas selecionados









Fotos do processo da residência (2024)

Flyer divulgação da abertura de processo da residência realizada na Oficina Cultural Oswald Andrade - SP (2023), com catorze artistas selecionados .
Vídeo abertura do processo 2023
Fotos do processo da residência (2023)


