Sobre o Degelo





Notas acerca de intervenção desenvolvida pelo 16 mulheres e 1/2 no 1o. intercâmbio de idéias e ações do Núcleo Cinematográfico de Dança.

Subo no gelo. Subimos. Iria doer. Doer muito. Haviam dito. Subimos e eis-nos, um Gicometti ao avesso, não de cobre durável, mas sobre o gelo, que é duro, mas derrete. Subimos e eis-nos, um Giacometti ao avesso, não terroso e ancestral, mas frio e urbano: Diante do ponto de ônibus. Diante da espera. Derretiam os gelos delicada e lentamente, sem perder a forma (como um suor ou como lágrimas) e a água que os gelos criavam, curiosamente o chão conduziu em um só rio, que margeava o ponto de ônibus e escorria no meio fio. Era noite. As luzes sensíveis, amarelas e não frias, do centro da cidade. Os grandes prédios.

Iria doer. Doer muito. Haviam dito. Se doía, não sei. Talvez aos poucos, não muito. O gelo é duro, mas não pedra. Ele e a água foram envolvendo a meia e meus pés aos poucos. Doeu um pouco o meu calcanhar. Talvez ele um pouco virou pedra, eu mesma não poderia escorrer junto, naquele afluente até a rua. Eu parei. E nesse parar estive cheia. Nada precisaria ser feito. Estava em meu pedestal frágil, que me consumia a suaves gotas. E aquela pequena dor me dizia do viver. Ah, não é meio isso o viver? Habitar fragilidades com uma pequena dor que consome a suaves gotas?

A direita, o impôstometro seguia tecendo seus infindáveis números, números que nem sei mesurar, não me fazem sentido. Os números correm no acumular dos dias. Por que corremos nós ao acumular dos dias? ah. Parar e um pouco doer e um pouco estar imóvel. Sim. Ali não estava enganando ninguém.

. No ponto de ônibus, uma menina nova nos olhou fundo. Um olhar mareado e longo. Ela sustentou seu olhar sensível e sério 10 minutos sem desviar. Não sei se derretia com o gelo ou se entendeu do imóvel. Depois sumiu num ônibus. (Eu acho que me apaixonei por ela por aqueles 10 minutos). .

Eu poderia ficar ali horas. Não tive vontade de nada. Poderia ficar eternamente. A verdade é que estaria lá até agora. 

(talvez esteja, sózinha já, em cima de uma pedra, envolta doutras tantas vazias, já ninguém na rua, eu olhando o vazio, e o impostometro a seguir contagens)

Será que eu perceberia se meu pé gangrenasse? Será que sairia antes? Ou o gelo teria me envolvido em sua doída e honesta imobilidade e eu perderia meu pé por ele?

A partir de agora podem fazer o que quiser, disseram. O que quiser. Mas eu havia estancado o querer. Meu pé duro se sentiu aliviado por sua anestesia... "finalmente não preciso e nem poderei levá-la a lugar nenhum", meu pé pensava.

Em volta de mim, muitos seres em pedestais de gelos estavam também parados, talvez também seduzidos pelo imóvel, outros se mexiam, mexiam, já se misturavam um pouco ao vai e vem dos ônibus... me senti quase como uma pedra que sempre existiu e viu diferentes espécies a viver e morrer, sem se apegar a nada, guardando apenas alguns olhares pra dentro.

Todos desceram dos gelos e eu ainda estava. Só saí dali porque me ofereceram uma mão, talvez eu não saberia como ou porque descer sózinha. Ela percebeu, acho, e me ofereceu sua mão. Pisar o chão de novo doeu. Subiram sensações em onda. Ah, terei que voltar a me mover? Paro um tempo, agaixo, sinto meu pé em conflito de existência. E eu percebo as pessoas queridas ao fundo, já se movendo, conversando, se arrumando... ... ... ... Quero retardar um pouco... Quero... ... ... Quero retardar um pouco. A vida voltou a ser banal e um pouco desonesta... sinto-me numa espécie de contaminação... Devolvam-me a pedra, o gelo, por favor?

Olho pra frente. Uma placa. Aqui nasceu a cidade de São Paulo. É isso. A cidade ficou nua. Cidade gelo. Quando de fato paramos para te permitir escorrer? Hoje me impliquei para que um pouco escorresse. Mas por mais que implicasse toda a minha força, você se manteria pedra e eu gangrenaria em prol de pequenas gotas bastante insignificantes em relação aos seus blocos rígidos.

O gelo me deixou nua.

Choro. É estranho voltar as pequenas banalidades da vida.  Falar do ônibus, da roupa, falar sobre qualquer coisa. Choro dessa passagem, ela não me é natural, ela me invade, violentamenta, me atravessa.

Por que só vivemos fundo nas brechas?

Volto para a vida. O Terminal Bandeira. Minha casa.

E agora de tempos em tempos, no meio das coisas simples das repetições que chamamos de nós, imagino os blocos de gelo na praça, solitários, a escorrer lentamente seu rio, espelhando um pouco de nossa solidão.


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