Rasgar - Clarice / Método e Antimétodo


“CLARICE / MÉTODO E ANTIMÉTODO” In Cadernos de Literatura Brasileira Clarice Lispector (Instituto Moreira Salles)

Estes são alguns dos trechos recolhidos por Marina Marcondes Machado para uma disciplina na ECA, não retirei diretamente do livro (este especificamente não tenho).

A coisa vai-se fazendo em mim. Não escolho o momento, é ele que me escolhe. Inspiração? Não existe. A gente tem é que estar preparada para o momento que escolhe a gente. O meu método de trabalho é estar com a ponta do lápis feita. O resto é quase orgânico, fora da minha deliberação, da minha alçada. Não sei pôr no papel uma coisa que já não estou sentindo mais. Quando escrevo, sinto os personagens até a morte. (p.78)

Não se faz uma frase. A frase nasce.

Quando trabalho, não penso em mim nem no meu leitor. As ideias me vêm puras e, uma vez formadas, como uma criança que nasce, dou-lhes inteira liberdade. (p.79)

Descobri que preciso não saber o que penso. Se eu ficar consciente do que penso passo a não poder pensar. Quando digo ‘pensar’ quer dizer sonhar palavras. Ou melhor: passo a só me ver pensar. Meu pensamento tem que ser um sentir. Penso tão depressa que não sei o que penso. Penso por imagens mais rápidas que as palavras do pensamento pudessem captar. O vazio, e o não pensar, é o melhor estado mental para que as imagens se façam. (p.80)


Eis aqui meu manifesto do “não saber”. Não é uma apologia da ignorância, muito pelo contrário, é permitir-se estar diante do desconhecido (ou do aparentemente conhecido), num estado de descoberta ‘quase’ ingênua.

Eu me uso como forma de conhecimento. Minha vida começa pelo meio como eu sempre começo pelo meio, aí vai o meio. Depois o princípio aparecerá ou não.(...) No que precede o acontecimento – é lá que eu vivo. Espero viver sempre às vésperas. E não no dia. O presente só existe quando ele é lembrança e só existe quando vai ser. Estive à beira de compreender o tempo, eu senti que sim. Mas logo em seguida ao leve vislumbre, tive uma espécie de medo de penetrar sem nenhuma lógica na matéria que me pareceu de súbito sagrada: Não esquecer: hoje é agora. Ressoam os tambores anunciando o sem-começo e o sem-fim. Abrem-se as cortinas. Eu sinto que a realidade é tridimensional. Por quê? Não consigo explicar. O que sinto é no sem-tempo e no sem-espaço. O tempo no futuro já passou. (...) Eu conheço o seguinte: estar plena do nada. Isto é resultado de uma longa e penosa aprendizagem. (...) Nada começou e nada terminará. Inclusive não existe a palavra ‘sempre’ pois ela se refere a ‘tempo’ e ‘tempo’ só existe em nós referindo-se a uma coisa se transformar em outra. (A essa transformação chamamos tempo) Mas o tempo em não é. O tempo é indefinível. Eu me coloco bem depressa no tempo, antes de morrer. A vida é muito rápida, quando se vê chegou ao fim. E ainda por ciam somos obrigados a amar a Deus. (p.93)

Vejo aqui o tempo relacionado ao ritual, ao sagrado, e ao mesmo tempo à vida vivida.

Quando eu procuro demais um ‘sentido’ – é aí que não encontro. O sentido é tão pouco meu como aquilo existe no além. O sentido me vem através da respiração, e não em palavras. É um sopro. (p.94)


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