A identidade é ficcional

" Nas Metamorfoses, em duzentas e quarenta fábulas,

        Ovídio mostra seres humanos transformados em

        pedras, vegetais, bichos, coisas.

Um novo estágio seria que os entes já transformados

        falassem um dialeto coisal, larval, pedral etc.

        Nasceria uma linguagem madruguenta, adâmica,

        edênica, inaugural —

Que os poetas aprenderiam — desde que voltassem às

        crianças que foram

Às rãs que foram

Às pedras que foram.

Para voltar à infância, os poetas precisariam também de

        reaprender a errar a língua.

Mas esse é um convite à ignorância? A enfiar o idioma

        nos mosquitos?

Seria uma demência peregrina."

( Manoel de Barros- VIII O GUARDADOR DE ÁGUAS)


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